domingo, 28 de novembro de 2021

Respirem e não pirem

    Já respiraram hoje? É uma questão pertinente, apesar de aparentar ser um pouco estúpida. Perguntem-se a vocês mesmos. Já respiraram? 

    Quando faço esta questão, o que realmente quero perguntar é: já pararam um bocadinho para respirar? Obviamente que não me estou a referir ao comportamento inato. Respirar é completamente involuntário. Não pensamos antes de o fazer. E, por isso, vivemos sempre a mil.

    Às vezes, é necessário uma pausa. Olhar para um ponto isolado, parar de pensar e, simplesmente, respirar bem fundo. 

    Esta semana, descobri que respirava mal. É verdade, isso mesmo que acabaram de ler. E, muito provavelmente, vocês também respiram mal. Enchem os pulmões de ar pelo nariz, a caixa torácica aumenta e expulsamos todo o dióxido de carbono pela boca. Passamos uma vida inteira a pensar que é assim que se respira fundo. Isto é, quando é necessário o médico auscultar-nos, é assim. Mas isso não serve de nada quando a nossa mente nos foge. E o quanto ela nos foge!

    Foge para aqui e para ali. Foge para o medo. Foge para a raiva. Mente-nos dias e dias seguidos sobre o nosso valor. Mente-nos e enche-nos de inseguranças e paranoias descabidas. Isso tudo depressa se torna num sintoma fisiológico. 

    Já sentiram aquele ardor na garganta? As lágrimas a quererem sair dos olhos, ao deixarem um rasto no rosto, acompanhado com uma respiração acelerada e exagerada que depressa se torna numa hiperventilação. As palpitações a forçarem o sangue a ser bombardeado sem oxigénio suficiente para o nosso cérebro. E aquela sensação horrível. Aquela sensação que vamos morrer. Que a nossa vida acaba ali, como se estivéssemos a ter um ataque cardíaco. O peso na nuca, a dor na barriga e o vómito à porta dos lábios. A secura na boca, a audição que parece ir desvanecendo, assim como a nossa visão. A sensação de perda de sensibilidade nas pernas, como se já não soubesse andar. E, depois, o que mais temíamos. Só que não é. Não morremos. Perdemos os sentidos, porque a mente nos enganou e roubou a razão. E como? Como é que um pensamento acaba num cenário destes? 

    Despertamos deste pesadelo e parece que nem 5 minutos passaram. Mas sentimos como se tivessem sido horas e horas. O mundo à nossa volta continua a girar, as pessoas continuam a correr de um lado para o outro e muitas nem sequer se apercebem que estás ali. 

    Viver na correria é o que está a dar hoje em dia. E as pessoas esquecem-se de respirar. Ou melhor, esquecem-se de respirar em condições. Vivemos em contagem decrescente. A contar os minutos que faltam. A contar os minutos que faltam para aquilo que temos de fazer no trabalho, para o jantar estar pronto. Até para acordarmos, de manhã. Vivemos numa correria. 

    Se já vivemos no stress, como vamos aprender a tirar minutos do nosso escasso tempo, que descontamos aos poucos nas atividades que tentamos inserir em 24h, para respirar?

    Nunca ninguém me tinha ensinado a respirar, até esta semana. E posso dizer que penso que o meu coração e os meus pulmões estão agradecidos. 

    Respirem!


sábado, 27 de novembro de 2021

Fazer Reset


     Hoje, decidi voltar a escrever. Decidi voltar a contar, a expor um pouco da minha alma, sem ponto final (mas sempre com pontuação, não sou Saramago). Mas não foi apenas hoje. Tenho retomado o gosto em certas atividades que me davam tanta alegria no passado. Mas passei demasiado tempo chateada, magoada, ressentida. Porquê? Nem sei bem explicar. Mas saberei, em breve. 

    Por enquanto, apenas estou a trabalhar nos meus pensamentos. Parece fácil, ao dizer assim, mas não é. De todo! Estamos habituados a varrê-los para debaixo do tapete. Realmente, a curto prazo, é mais simples do que lidar com eles. A curto prazo...

    Então, escrevo só por escrever. Só para sentir o gosto que é registar a minha alma nas palavras. Até porque escrever sempre foi mais fácil para mim. Mais fácil do que falar. E, às vezes, nem precisa de fazer sentido. Não precisa de ser uma história com princípio, meio e fim. Até porque esta história já vai a meio. É um comboio já em viagem. Mas não é por essa razão que não é válida.

    Confesso que sinto uma certa ansiedade. Mas tenho noção que é aquela ansiedade boa. A ansiedade que me faz voltar a ter motivação. A ansiedade que me faz voltar a gostar destas pequenas coisas. Nem tudo pode ser mau, naquilo que aprendemos, nas nossas experiências do passado. E, claro, há sempre um tempo de cura. Mas, por alguma razão, esse tempo de cura quase parece um lapso de tempo na nossa vida, porque investimos tanto tempo nos nossos pensamentos negativos e nos nossos ressentimentos. Investimos tanto tempo na mágoa e na dor. Investimos tanto tempo no que nos faz mal que quase nem nos damos oportunidade de curar. E, quando damos conta, temos a vida passada. E porquê? Porquê dar tanta importância a traumas e más experiências, enquanto nos esquecemos de viver?

    E, assim, perdemos o nosso tempo. Perdemos o nosso tempo connosco mesmos. Perdemos o nosso tempo com as pessoas que amamos. Perdemos o nosso tempo sem fazer realmente aquilo que nos faz levantar da cama. Tornámo-nos numa geração de existência e, quando quisermos contar aos mais novos o que mais nos dava prazer na vida, sentimos aquela nostalgia, porque devíamos ter investido mais tempo nesses detalhes do que na toxicidade.

    Mas nada disto é simples. Não. E vamos escolher sempre continuar magoados. E, enquanto continuamos magoados, magoamos os outros. E tudo isto vira ciclo. Faz parte de nós enquanto seres humanos.

    Contudo, no meio deste ciclo, nunca nos apercebemos que já estivemos nas duas faces da moeda. Esta semana disseram-me algo que é importante ter em mente, pelo menos, para mim. ''Ele, provavelmente, fez o melhor que sabia e é algo que tens de aceitar''. É verdade. Mas ainda dói. Porque continuo a agarrar-me à mágoa, quase como se fosse um traço de personalidade já. E o facto de me doer a ouvir isto, quase como se me soasse a algo para relativizar os erros dos outros, faz-me entender, ao mesmo tempo, que é verdade. Basta pensarem nas vossas atitudes. Maior parte da nossa vida passamos a ter comportamentos que magoam os outros. E não é de propósito. Muitas vezes, nem damos conta. Por que é que haveria de ser diferente no sentido contrário? Nem sequer conseguimos ler pensamentos para entender as intenções dos outros. Por isso, temos de chegar a um ponto em que aceitamos que, provavelmente, quem nos magoou fez o melhor que sabia. Assim como nós, quando magoamos alguém.

    Este autocontrolo é escasso. Mais do que possam imaginar. Em cada um de nós, há uma voz interior que nos faz ser ressentidos e vingativos. Leva anos até calarmos essa voz interior. E está tudo bem. 

    O meu conselho? Façam um reset de vez em quando. Fazer reset é terapêutico. E não precisamos de um botão especial para isso. Apenas deixem ir todo o peso que vos prende ao que não vos faz bem. São coisas que começam em pequenos passos, mas que levam a grandes resultados. E, sim, às vezes esse botão de reset está encravado. Mas há sempre alguém que nos ajuda a dar um empurrão.

    E a nossa vida torna-se muito mais colorida a partir daí.