Por enquanto, apenas estou a trabalhar nos meus pensamentos. Parece fácil, ao dizer assim, mas não é. De todo! Estamos habituados a varrê-los para debaixo do tapete. Realmente, a curto prazo, é mais simples do que lidar com eles. A curto prazo...
Então, escrevo só por escrever. Só para sentir o gosto que é registar a minha alma nas palavras. Até porque escrever sempre foi mais fácil para mim. Mais fácil do que falar. E, às vezes, nem precisa de fazer sentido. Não precisa de ser uma história com princípio, meio e fim. Até porque esta história já vai a meio. É um comboio já em viagem. Mas não é por essa razão que não é válida.
Confesso que sinto uma certa ansiedade. Mas tenho noção que é aquela ansiedade boa. A ansiedade que me faz voltar a ter motivação. A ansiedade que me faz voltar a gostar destas pequenas coisas. Nem tudo pode ser mau, naquilo que aprendemos, nas nossas experiências do passado. E, claro, há sempre um tempo de cura. Mas, por alguma razão, esse tempo de cura quase parece um lapso de tempo na nossa vida, porque investimos tanto tempo nos nossos pensamentos negativos e nos nossos ressentimentos. Investimos tanto tempo na mágoa e na dor. Investimos tanto tempo no que nos faz mal que quase nem nos damos oportunidade de curar. E, quando damos conta, temos a vida passada. E porquê? Porquê dar tanta importância a traumas e más experiências, enquanto nos esquecemos de viver?
E, assim, perdemos o nosso tempo. Perdemos o nosso tempo connosco mesmos. Perdemos o nosso tempo com as pessoas que amamos. Perdemos o nosso tempo sem fazer realmente aquilo que nos faz levantar da cama. Tornámo-nos numa geração de existência e, quando quisermos contar aos mais novos o que mais nos dava prazer na vida, sentimos aquela nostalgia, porque devíamos ter investido mais tempo nesses detalhes do que na toxicidade.
Mas nada disto é simples. Não. E vamos escolher sempre continuar magoados. E, enquanto continuamos magoados, magoamos os outros. E tudo isto vira ciclo. Faz parte de nós enquanto seres humanos.
Contudo, no meio deste ciclo, nunca nos apercebemos que já estivemos nas duas faces da moeda. Esta semana disseram-me algo que é importante ter em mente, pelo menos, para mim. ''Ele, provavelmente, fez o melhor que sabia e é algo que tens de aceitar''. É verdade. Mas ainda dói. Porque continuo a agarrar-me à mágoa, quase como se fosse um traço de personalidade já. E o facto de me doer a ouvir isto, quase como se me soasse a algo para relativizar os erros dos outros, faz-me entender, ao mesmo tempo, que é verdade. Basta pensarem nas vossas atitudes. Maior parte da nossa vida passamos a ter comportamentos que magoam os outros. E não é de propósito. Muitas vezes, nem damos conta. Por que é que haveria de ser diferente no sentido contrário? Nem sequer conseguimos ler pensamentos para entender as intenções dos outros. Por isso, temos de chegar a um ponto em que aceitamos que, provavelmente, quem nos magoou fez o melhor que sabia. Assim como nós, quando magoamos alguém.
Este autocontrolo é escasso. Mais do que possam imaginar. Em cada um de nós, há uma voz interior que nos faz ser ressentidos e vingativos. Leva anos até calarmos essa voz interior. E está tudo bem.
O meu conselho? Façam um reset de vez em quando. Fazer reset é terapêutico. E não precisamos de um botão especial para isso. Apenas deixem ir todo o peso que vos prende ao que não vos faz bem. São coisas que começam em pequenos passos, mas que levam a grandes resultados. E, sim, às vezes esse botão de reset está encravado. Mas há sempre alguém que nos ajuda a dar um empurrão.
E a nossa vida torna-se muito mais colorida a partir daí.
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