sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

As vozes matreiras

   Entretanto, já passou um mês. Não só desde a última vez que escrevi aqui, mas também desde a última vez que escolhi a minha condição em vez da minha saúde mental. Escolhi ouvir a voz que me dizia que era o melhor a fazer, que era melhor desistir, não só apenas da minha saúde, mas de mim própria. E a voz continua a dizer-me isso durante dias, semanas... mas diz-me cada vez menos poderosa e menos assertiva. De vez em quando, tenta pregar-me partidas mas eu escolho-me, com muito custo. 

    Realmente, cheguei a pensar que não iria conseguir chegar tão longe na minha recuperação, que iria obedecer à voz e que seria esse o caminho certo para atingir o meu objetivo, que seria perder peso. Mas tive um apoio incondicional de pessoas fantásticas que me faziam perceber que aquilo que a voz me mandava fazer só me iria magoar.

    Para além disso, fui aprendendo a reduzir o volume dessa voz, que é estridente, e arranjei formas de, certas vezes, a conseguir calar mesmo. Sei que não se cala de vez. Não, por agora. Sei que a voz irá falar imensas vezes, umas vezes de forma mais agressiva e elevada e outras vezes menos poderosa sobre mim. 

    Há dias e dias, como em tudo, e ter de lutar com tantas vozes ao mesmo tempo não é, de todo, fácil. É a voz da ansiedade, que por vezes, até parece ter um tom mais grave e se transforma numa voz de pânico. É a voz da depressão, que é matreira, porque, maior parte das vezes, é silenciosa, mas quando acorda, não está para brincadeiras e deita uma pessoa completamente abaixo. E estas duas vozes, a voz do transtorno do pânico e a voz da depressão, são vozes com as quais já lido há algum tempo, que se mantêm na minha cabeça, sempre à espera do melhor momento para se levantarem do banco e falarem. Mas, de repente, que não é de repente, apenas não queria olhar para os factos e admitir, existe a voz do distúrbio alimentar. Toda uma nova voz na minha cabeça para aprender a lidar e a ignorar até. Toda uma nova recuperação para fazer, com passinhos pequeninos que no final de uma semana não parecem significativas, mas no final de um mês, fazem toda a diferença. E estas vozes todas juntas são tão barulhentas que eu nem sequer consigo ouvir-me, ouvir o meu coração e é através disso que tenho de lutar. É através do restante amor-próprio, mesmo nos dias mais difíceis, e do amor e apoio daqueles que me acompanham nesta luta para calar as vozes. Por essa razão é que quem sofre com estas vozes e outras tantas são pessoas fortes, são guerreiras, são pessoas sensíveis e frias ao mesmo tempo (nem sei se isto sequer faz sentido). Depois de toda esta luta, saímos uma pessoa completamente diferente, não melhor, não pior do que antes, mas com uma perspectiva totalmente diferente, que nos permite analisar e ponderar sobre as coisas com outro tipo de atenção. Tornamo-nos em soldados silenciosos, que, sem sabermos, ajudamos os outros com a aprendizagem adjacente a esta luta.

    Só temos de nos lembrar que, apesar de serem diagnósticos, não passam de vozes na nossa cabeça, e que as conseguimos abafar, com as pessoas certas e profissionais certos do nosso lado.

   Aconteça o que acontecer, nunca façam o que a voz vos diz para fazerem, por muito que custe. Ouçam a voz do vosso coração. Essa voz irá iluminar-vos.


sábado, 22 de janeiro de 2022

17 horas e 5 minutos

    Passado um mês da última publicação, voltei. Confesso que não têm sido dias, semanas fáceis, ainda para mais, é época de exames. Estava com muita vontade de voltar a desistir do blogue.

O porquê de estar a escrever hoje? Ainda não me sinto preparada para expor a razão por completo. Tive umas recaídas e senti novas emoções, experienciei novos pensamentos negativos.

O problema? Não eram assim tão novos. Apenas eram pensamentos que eu já tinha experienciado, mas que reprimia bastante. Não me estava a permitir sentir estas emoções e deixei arrastar até chegar à gota de água.

Fui autodestrutiva e quando tomei consciência disso, percebi que precisava de me reeducar. De voltar a sentir velhos hábitos de novas formas. E, claro, não podia punir-me por razões que são humanas. Isto é, não posso estar constantemente a criticar-me de uma forma destrutiva, a inferiorizar-me e muito menos a comparar-me. 

Cada um é como é e quando chegar o meu dia da aceitação, vou celebrar imenso. Agora, tenho de me focar na cura, na recuperação, em mim própria e na minha saúde.

Se é de um dia para o outro? Infelizmente, não. Vão haver dias de autocontrolo e autocuidado e vão haver dias de descontrolo total e miseráveis. Mas, depois de hoje, sinto-me preparada para tudo. 

Essencialmente, estou orgulhosa de mim mesma por ter conseguido transformar um pensamento negativo, em estado emocional, num pensamento racional. Só temos de arranjar as nossas estratégias de distração. E eu sei que escrevi "só", mas é mais difícil do que parece. E nem sempre as mesmas estratégias vão ajudar. Mas faz parte da recuperação evoluirmos, estarmos em constante mudança.

O meu cérebro não tem parado um segundo, parece uma montanha-russa num parque de diversões apinhado de crianças entusiasmadas para sentir aquela adrenalina. Ele procura a menina chamada serotonina, que anda escondida algures. E cabe-me a mim ajudá-lo a encontrá-la. É o que eu vou fazer, passinho a passinho. E o primeiro passo será permitir-me sentir todas as emoções e não reprimi-las, para que elas, um dia mais tarde, não voltem a tocar à campainha. Assim, vou-me interiorizando dos pensamentos emocionais e vou diminuindo o efeito que eles têm em mim. É uma aprendizagem, mas é necessário, se quero cuidar de mim e vencer estes demónios insistentes.

Tenho de pensar na lógica do sistema imunitário. Quando o nosso sangue está em contacto com uma substância desconhecida, começa a produzir os soldados anticorpos para nos defenderem. O engraçado é que, uma vez que essa batalha está ganha, os anticorpos não vão embora completamente, eles vão descansar apenas. Quando voltamos a sentir essa mesma substância estranha, as células de memória acionam o alarme e estes anticorpos estão melhor preparados para lutar, por já conhecerem a substância. E vão fortalecendo cada vez mais.

Só tenho de pensar que eu sou um anticorpo em constante metamorfose, a lutar com emoções estranhas, já sentidas antes, e que vou fortalecendo nesta luta, com dedicação e esforço. E quando faltar a motivação, tenho as ferramentas certas, os meus ibuprofenos e paracetamois, que me ajudam nesta luta diária e que são indispensáveis.

Há uma frase da minha melhor amiga que não me sai da cabeça: "És mais do que o teu diagnóstico, ele não te define enquanto pessoa". E é esta frase que eu vou ter em mente, será o meu mantra, mesmo nos piores dias.