Entretanto, já passou um mês. Não só desde a última vez que escrevi aqui, mas também desde a última vez que escolhi a minha condição em vez da minha saúde mental. Escolhi ouvir a voz que me dizia que era o melhor a fazer, que era melhor desistir, não só apenas da minha saúde, mas de mim própria. E a voz continua a dizer-me isso durante dias, semanas... mas diz-me cada vez menos poderosa e menos assertiva. De vez em quando, tenta pregar-me partidas mas eu escolho-me, com muito custo.
Realmente, cheguei a pensar que não iria conseguir chegar tão longe na minha recuperação, que iria obedecer à voz e que seria esse o caminho certo para atingir o meu objetivo, que seria perder peso. Mas tive um apoio incondicional de pessoas fantásticas que me faziam perceber que aquilo que a voz me mandava fazer só me iria magoar.
Para além disso, fui aprendendo a reduzir o volume dessa voz, que é estridente, e arranjei formas de, certas vezes, a conseguir calar mesmo. Sei que não se cala de vez. Não, por agora. Sei que a voz irá falar imensas vezes, umas vezes de forma mais agressiva e elevada e outras vezes menos poderosa sobre mim.
Há dias e dias, como em tudo, e ter de lutar com tantas vozes ao mesmo tempo não é, de todo, fácil. É a voz da ansiedade, que por vezes, até parece ter um tom mais grave e se transforma numa voz de pânico. É a voz da depressão, que é matreira, porque, maior parte das vezes, é silenciosa, mas quando acorda, não está para brincadeiras e deita uma pessoa completamente abaixo. E estas duas vozes, a voz do transtorno do pânico e a voz da depressão, são vozes com as quais já lido há algum tempo, que se mantêm na minha cabeça, sempre à espera do melhor momento para se levantarem do banco e falarem. Mas, de repente, que não é de repente, apenas não queria olhar para os factos e admitir, existe a voz do distúrbio alimentar. Toda uma nova voz na minha cabeça para aprender a lidar e a ignorar até. Toda uma nova recuperação para fazer, com passinhos pequeninos que no final de uma semana não parecem significativas, mas no final de um mês, fazem toda a diferença. E estas vozes todas juntas são tão barulhentas que eu nem sequer consigo ouvir-me, ouvir o meu coração e é através disso que tenho de lutar. É através do restante amor-próprio, mesmo nos dias mais difíceis, e do amor e apoio daqueles que me acompanham nesta luta para calar as vozes. Por essa razão é que quem sofre com estas vozes e outras tantas são pessoas fortes, são guerreiras, são pessoas sensíveis e frias ao mesmo tempo (nem sei se isto sequer faz sentido). Depois de toda esta luta, saímos uma pessoa completamente diferente, não melhor, não pior do que antes, mas com uma perspectiva totalmente diferente, que nos permite analisar e ponderar sobre as coisas com outro tipo de atenção. Tornamo-nos em soldados silenciosos, que, sem sabermos, ajudamos os outros com a aprendizagem adjacente a esta luta.
Só temos de nos lembrar que, apesar de serem diagnósticos, não passam de vozes na nossa cabeça, e que as conseguimos abafar, com as pessoas certas e profissionais certos do nosso lado.
Aconteça o que acontecer, nunca façam o que a voz vos diz para fazerem, por muito que custe. Ouçam a voz do vosso coração. Essa voz irá iluminar-vos.
Sem comentários:
Enviar um comentário