Nem sei por onde começar. Apenas sei que só me apetece escrever, escrever e escrever. É tão fácil demonstrar o que sou, o que penso e o que sinto através da escrita. Mas no que toca em falar, parece que as palavras ficam presas na garganta e não se libertam.
Ontem, na consulta, foi-me pedido que começasse um diário, para descrever o meu dia, nem que fosse apenas classificá-lo. Comecei e apercebi-me que não conseguia apenas descrever o meu dia com uma mera classificação. Assim que peguei na caneta, escrevi e transpus os meus pensamentos para o papel.
Sempre fui mais fã de escrever em papel do que escrever em computador. É outra sensação, parece que os pensamentos até fluem melhor. Os sentimentos tornam-se tão racionais, que transpassam pelas sinapses todas até chegar ao nervo mais pequeno que segura na caneta. E traduzem-se em palavras. Aí, eu consigo compreender-me. Consigo ver a minha alma a nu, sem recalques, sem escudos, sem a escuridão do subconsciente. A única forma parecida de me sentir assim é quando toco violino. Escrita e música são as formas que mais me deixam vulnerável. Mas aquele vulnerável onde nos sentimos bem e leves. Onde percebemos que, mesmo vulnerável, nada nem ninguém nos pode magoar.
Penso que me foquei tanto em cumprir os meus objetivos mais profissionais, que me esqueci dos meus hobbies e o quanto eles me faziam bem. Sem rumo certo, sem um prazo definido ou a pressão em ser a melhor. É o que sinto ao escrever ou tocar violino. Em tempos, já foi o contrário. Mas porque sempre pus imensa pressão nos meus ombros. Sempre fui muito perfeccionista. Digo-vos por experiência própria, isso leva-vos ao fundo do poço. Sim, é importante termos ambições. Mas a linha que separa a ambição da obsessão é muito fina e frágil. É como se a ambição fosse um elástico. Nós esticamos sempre com o objetivo de obter melhores resultados, porque queremos sempre mais, nunca estamos satisfeitos. E, à medida que esticamos, o elástico vai enfraquecendo, ficando cada vez mais fino, lasso e frágil. Até que a ambição deixa de ser algo agradável, o elástico rebenta e aparece a obsessão. A sensação, quando isto acontece, é horrível. Porque deixamos de fazer as coisas por gosto e dedicação. Fazemo-las para mostrarmos que conseguimos mais e melhor. E a quem é que queremos mostrar isso? Aos outros, não a nós próprios. Então, deixamos de fazer as coisas por nós mesmos, fazemos para que os outros vejam. E quando eles não querem saber, o poço aparece à frente e é um instante até cairmos no poço da desmotivação e da não vontade.
A partir daqui, posso perceber que é importante focar-me, óbvio. Nada se faz sem foco e esforço. Mas tenho de ter calma. Calma na forma como realizo os meus objetivos e sonhos, quer sejam eles profissionais, quer sejam profissionais. O mais importante é fazer as coisas por mim e para demonstrar a mim própria que consigo fazer. Até porque, maior parte das vezes, não sabemos que conseguimos fazer algo até realmente o fazermos. Eu não sabia que conseguia perder 20 quilos sozinha, até o fazer. E são estas pequenas coisas, estes baby steps que devem orgulhar-nos e fazer-nos ter consciência que as coisas são para ser feitas com gosto e não para os outros verem.
Temos de parar de ligar ao que os outros pensam de nós e de pensar em manter sempre as aparências. Até no simples ato de chorar, temos a tendência de não gostar que ninguém o veja, para manter aquela aparência firme e perfeita. To keep in mind: ninguém é perfeito. Isto é para todos os perfeccionistas por aí. Ninguém. Esforcem-se para serem melhores do que no dia anterior, sim. Mas porque isso vos faz BEM, não porque querem ser perfeitos.
Não se esqueçam que para sermos saudáveis, precisamos de bem-estar mental, de saúde mental. E alguém consegue manter uma boa saúde mental se passa os dias a tentar ser perfeito? Nunca. Vejo agora que foi um dos pontos que destruiu a minha saúde mental. E não o vou permitir mais. Vou antes permitir-me ser humana, errar e falhar, não ser perfeita, ter 3746585 defeitos e saber que apesar desses defeitos, tenho ainda mais qualidades.
Por cada defeito que encontre, vou apontar duas qualidades. Daqui a amanhã até posso descobrir novas qualidades, quem sabe. E vai ser uma luta diária para não me autosabotar ao fazer críticas destrutivas sobre mim mesma. Mas eu sei que vou conseguir, posso ser perfeccionista, mas sou resiliente e dedicada.
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